Como eu me reconheci feminista …

Não me demorei para declarar feminista. Não demorei nada.

As pessoas me perguntavam: Você é feminista? – com aquele ar de desdém que muitos tinham a uns míseros 4 anos atrás, e eu – Sou.- assim mesmo, simples, direta, e na maioria das vezes o assunto acabava ali.

eae22c349c43b2b6bc20881f3551b252Foto: Bruna Uller

Vamos voltar um pouco (na verdade, muito). Eu tive uma educação bem diferente se tratando de anos 90, com uma estrutura familiar que visto de fora é tradicional, um pai, uma mãe e um irmão.

Meus pais trabalhavam em turnos diferentes: minha mãe na época trabalhava de segunda à sexta de manhã como empregada doméstica (ainda trabalha, mas só 3x na semana) e meu pai era garçom e trabalhava mais nos finais de semana à noite.

Meu pai na época tinha apenas completado o ensino médio (ele fez faculdade depois), minha mãe apenas o ensino fundamental (ela fez o ensino médio depois).

Eu estudei em período da manhã e da tarde na infância, e quem me levava para escola? Meu pai. Quem fazia ou somente esquentava o meu almoço? Meu pai. Quem me ajudava nos deveres de casa? Meu pai. Quem ia nas reuniões escolares um dos poucos numa penca de mulheres? Meu pai. Quem me incentivou a fazer um esporte mesmo eu sendo bem ruim e na família só ter perna de pau?  Meu pai.

E hoje em dia minha mãe pode até reclamar que meu pai ficou mais preguiçoso, mas ele fazia diversas coisas em casa como lavar roupas, fazer comida, lavar as louças, comprar comida no supermercado e os colegas dele ainda o apelidaram de mamãe porque ele sempre tinha um mini kit de costura. E hoje ele ainda faz bolos mesmo todos aqui em casa estarem de dieta.

E isso sempre foi o normal para mim. Normal. E a minha mãe? Ela sempre me apoiou, me deu carinho, ela é muito amorosa e ela ama comunicação. Chegava do colégio e eu enquanto comia, ela sentava do meu lado e perguntava o que houve no meu dia, ela sempre quis saber de tudo, tudo. As pessoas costumam dizer que somos muito diferentes, mas eu vejo algumas semelhanças. E eu já era criança, quando ela começou a falar a frase que ela fala até hoje: se você apanhar de homem e continuar apanhando, eu vou te meter a porrada, porque se nem seus pais te batem, por que você tem que apanhar?

E mulheres, por que temos que apanhar?

É óbvio que mesmo criada de uma forma incomum entre crianças dos anos 90 que segundo os meus amigos rolavam alguns cintos, eu percebi minha condição de mulher, porque ser mulher é difícil pra caramba.

Eu quando tinha 12/13 anos sofri uma pequeno grande abuso sexual. Grande porque nenhum abuso é pequeno neh galera. Pequeno porque foi só o ato de tocar e foi rápido, não houve nada além disso.

Tocar as partes íntimas de alguém sem consentimento também pode ser enquadrado como estupro, dentre outros comportamentos. (Conforme Art. 213 do Código Penal: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso)”¹

E depois vieram as cantadas na rua, e só quem é mulher sabem o quanto são constrangedoras, e na boa, hoje as pessoas matam por nada, muitas vezes eu confesso, me calo. E eu na maioria das vezes não deveria mas ando, porque moro longe e sempre espero que nada aconteça andar na madrugada sozinha, porque eu sou mulher.

Aos 14/15 anos, um tio me chamou de burra porque tinha discordado de uma opinião política dele. Nunca ninguém tinha me chamado de burra até então, eu só tirava 8 e 10, a nerd da família, apesar de eu discordar muito desse chamariz.

A primeira da família a passar numa faculdade pública, pura sorte. – Por que sorte? Meus pais sempre me incentivaram a estudar.

Você tem que saber cozinhar/limpar para agradar marido. – Mas e se eu não quiser casar? Minha mãe havia me ensinado até então que eu poderia contratar uma empregada quando eu fosse mais velha, mas que eu tinha que saber fazer para saber mandar, bem diferente o discurso dentro de casa.

E eu ainda vejo mulheres sendo menosprezadas e isso dói. Dói o feminicídio. E dói saber que tem mulheres que ainda não se tocaram que são tão incríveis.

Nós somos incríveis, nós não somos nem mais e nem menos que os homens, nós somos mulheres. E cada uma é incrível e tem uma força. E o que eu quero ser no mundo? Eu quero é ser mulher, mas eu não quero ser podada. Eu me sinto sufocada, porque eu quero ser mulher sem precisar ter medo de sair na rua, sabendo que irei ganhar o justo e que o justo seja o mesmo que os homens e ter simplesmente as mesmas oportunidades que eles.

E por que eu sou feminista? Exatamente por eu querer ser mulher, eu quero ter o poder de todas as escolhas que eu ache que é de meu direito, a escolha do tamanho da minha saia, a escolha de sair a hora que quiser, a escolha de ter ou não filhos, a escolha do meu estado civil. Eu só quero é ser mulher.

 

Jessica Lopes

Fontes:

  1. Retirado do site  <http://www.verbojuridico.com.br/blog/violencia-contra-mulher-legislacao-cultura-estupro/>
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